Quando chega a altura de dizer adeus…


Todos os dias tomamos decisões: umas maiores, outras menores; umas
conscientes, outras inconscientes; umas com o objectivo de adquirimos algo, outras
com o objectivo de evitarmos algo – no campo do treino canino poderíamos falar
agora dos quadrantes do condicionamento operante…
E a ausência de decisão é, em si mesmo, a tomada de uma decisão. Quando
escolhemos uma coisa em detrimento de outra, em Economia dá-se a isso o nome
de custo de oportunidade. No dia-a-dia da vida, chamamos-lhes apenas escolhas…
mas há escolhas que desejaríamos não ter de tomar, principalmente quando são
irreversíveis. E a mais irreversível de todas é quando decidimos que chegou a hora
de deixar o nosso animal de estimação ir.
Os humanos vivem 70/80/90/100 anos. Ainda recentemente o grande actor
português Ruy de Carvalho completou 99 anos. Mas, infelizmente, os nossos
animais de estimação vivem vidas bem mais curtas, 10/12/15/20 anos. E à medida
que se aproximam do fim da sua viagem connosco, é importante avaliarmos a sua
qualidade de vida. Doenças crónicas ou agudas impactam as suas vidas de formas
que ainda não conseguimos compreender, porque os nossos animais não nos
conseguem dizer, verbalmente, que estão com dor ou cansados ou esgotados. Por
isso é importante, quando surgem alterações comportamentais ou físicas, fazermos
um acompanhamento regular com o médico veterinário assistente e irmos
reavaliando sempre o estado do nosso animal de estimação. E é também
importante começarmos a preparar-nos, mentalmente e emocionalmente, para o
momento da partida. Porque é quando mais resistimos a deixá-los ir que mais os
magoamos, porque deixamos de prestar atenção às suas necessidades e ao que o
seu corpo e o seu comportamento nos diz, para nos focarmos em nós e na nossa
relutância em enfrentar a dor que a sua perda vai trazer. E por isso evitamos tomar
uma decisão até ao último momento.
Ter a consciência, desde o início, quando adoptamos um animal, que um dia ele vai
partir antes de nós é meio caminho andado para vivermos a sua vida de forma plena
e planearmos a sua partida de forma serena. Mas ter esta consciência leva-nos,
também, a enfrentar a nossa própria mortalidade, principalmente se nós próprios já
estivermos mais próximos do final do nosso caminho do que do início. E estas
questões não são fáceis de lidar. Como não é fácil de lidar com o luto de um animal
de estimação, principalmente numa sociedade onde este não é visto com bons
olhos.
Contudo, se nos esforçamos para dar o melhor que podemos ao nosso animal em
vida, é importante que coloquemos o mesmo empenho quando se trata de garantir
que o deixamos ir no tempo dele e não no nosso, porque o nosso tempo é muitas
vezes egoísta. Hoje em dia, já existem serviços médicos veterinários que permitem
fazer a eutanásia em casa e agências funerárias animal que tratam de todos os
trâmites. E informar-se sobre o que existe, fazer escolhas e começar a preparar-se

não é desejar que o seu amigo de quatro patas parta, é antecipar uma
inevitabilidade da vida para garantir que, quando a altura chegar, ele irá partir da
mesma forma que viveu, rodeado de amor.

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