No Pelos2, a intervenção vai muito além do treino canino. É um espaço onde pessoas e cães crescem juntos, com intervenção psicológica que garante segurança e transformação.
Ao longo do projeto, tem sido possível observar o impacto emocional da ausência dos participantes em determinadas sessões, seja por motivos disciplinares, de saúde ou por saídas externas. Esta ausência não é vivida de forma neutra. Para os participantes representa a interrupção de um vínculo em construção, gerando sentimentos de culpa, insegurança ou receio de “ter ficado para trás”. Em alguns casos, observa-se uma necessidade acrescida de reconexão, traduzida numa maior procura de contacto, validação ou proximidade na sessão seguinte. Alguns cães revelam maior inquietação, menor foco ou maior procura de contacto.
Nos jovens, Pelos2 Teens, as ausências tendem a ser vividas de forma mais emocional e imediata. No regresso, é frequente observarem-se manifestações mais visíveis de tristeza, frustração ou injustiça por não terem participado. Muitos jovens verbalizam diretamente o que sentiram (“tive pena de faltar”, “não consegui mesmo vir”, “fiquei triste porque sei que ele ficou fechado”), revelando uma forte ligação ao cão como espaço de pertença e segurança. Esta reação reflete um momento de desenvolvimento em que a regulação emocional, a tolerância à frustração e a continuidade relacional ainda estão em construção, tornando o impacto da ausência mais intenso e evidente.
Nos adultos, Pelos 2.0, a vivência tende a ser mais contida e reflexiva. Embora também surjam sentimentos de tristeza ou perda, estes são frequentemente expressos de forma menos explícita e mais racionalizada. O impacto manifesta-se sobretudo através da reflexão sobre a responsabilidade, a continuidade do compromisso e a consciência do efeito da ausência no cão e na relação construída. Aqui, a ausência abre espaço para trabalhar temas como culpa, responsabilidade relacional e reconstrução do vínculo, com maior capacidade de insight e verbalização.
Em ambos os grupos, a ausência reforça a importância do vínculo humano-cão e do espaço terapêutico do projeto. A forma distinta como jovens e adultos vivenciam estas interrupções confirma a necessidade de uma intervenção psicológica ajustada à fase de desenvolvimento, garantindo que cada experiência — incluindo a ausência — se transforma numa oportunidade de aprendizagem e crescimento.